Em suma, um elemento crucial não foi apenas quem venceu, mas como o poder foi mantido, remodelado ou legitimado, frequentemente por governantes em exercício, antigos governantes militares ou partidos dominantes.
Segue um panorama das principais eleições presidenciais que ocorreram na África em 2025 e da dinâmica política envolvida.
Gabão: de líder golpista a presidente eleito
As eleições no Gabão, em abril, foram uma das mais acompanhadas de perto em toda a África.
O ex -general Brice Oligui Nguema, que liderou o golpe de Estado de 2023 que pôs fim a décadas de domínio da família Bongo, venceu a eleição presidencial com ampla maioria. A votação encerrou formalmente o período de transição e devolveu o país ao governo civil, pelo menos no papel.
Embora os apoiadores tenham apresentado a eleição como um recomeço após anos de estagnação política, alguns críticos argumentaram que ela legitimou principalmente o poder militar por meio das urnas. Ainda assim, a eleição representou um caso raro em que um líder golpista buscou a aprovação popular em vez de governar indefinidamente por decreto, uma prática comum na África.
Malawi: a política competitiva retorna.
As eleições de setembro no Malawi se destacaram por um motivo diferente.
O presidente em exercício, Lazarus Chakwera, enfrentou uma disputa acirrada, marcada por dificuldades econômicas, inflação e frustração popular. Os eleitores compareceram em grande número, e a eleição foi amplamente considerada aberta e imprevisível.
A eleição reforçou a reputação do Malawi como uma das democracias mais competitivas da África Austral, onde os governantes podem perder e as instituições ainda são importantes.
Seychelles: um raro confronto na segunda rodada
Nas Seychelles, a eleição presidencial foi para o segundo turno, evidenciando o pluralismo político no país insular.
O presidente Wavel Ramkalawan não conseguiu obter maioria absoluta no primeiro turno, o que levou a uma segunda votação em outubro. A disputa acirrada refletiu um eleitorado dividido e um debate crescente sobre governança, custo de vida e prestação de contas.
As eleições de segundo turno continuam sendo raras na África, tornando as Seychelles uma exceção em um ano dominado por vitórias esmagadoras em outros lugares.
Camarões: o poder perdura apesar da idade e do cansaço.
Aos 92 anos, Paul Biya garantiu mais um mandato em outubro , estendendo uma das presidências mais longas do mundo.
A eleição ocorreu em meio a baixo entusiasmo eleitoral, queixas da oposição e preocupações com a sucessão. A vitória de Biya reforçou um padrão já conhecido em Camarões: eleições que pouco alteram a cúpula do poder, enquanto questões mais profundas sobre a renovação da liderança permanecem sem resposta.
Costa do Marfim: estabilidade através da exclusão?
O presidente Alassane Ouattara conquistou um quarto mandato em outubro com ampla margem, após várias figuras importantes da oposição terem sido impedidas de concorrer.
As autoridades defenderam o processo como constitucional, enquanto os críticos afirmaram que as exclusões enfraqueceram a competição política. A eleição evitou a violência vista em ciclos anteriores, mas os debates sobre justiça e inclusão continuam a moldar a política da Costa do Marfim.
Tanzânia: vitória esmagadora, oposição discreta
As eleições gerais de outubro na Tanzânia resultaram em uma vitória expressiva para a presidente Samia Suluhu Hassan.
A dimensão da sua vitória foi impressionante, mas ocorreu num contexto de restrições impostas pela oposição e de alegações de assédio. Embora o governo tenha destacado a estabilidade e o progresso económico, os críticos questionaram se o cenário político estava verdadeiramente aberto.
Guiné: eleições após anos de regime militar
Em dezembro, a Guiné realizou sua primeira eleição presidencial desde o golpe de 2021.
O líder da junta, Mamadi Doumbouya, era amplamente esperado como vencedor, o que posicionou a eleição como uma transição de volta ao governo civil. Assim como no Gabão, a votação levantou uma questão crucial para diversos países africanos: a realização de eleições significa automaticamente o retorno da democracia?
República Centro-Africana: regras em mudança, rostos familiares
Também em dezembro, os eleitores da República Centro-Africana foram às urnas após alterações constitucionais que permitiram ao Presidente Faustin-Archange Touadéra concorrer a mais um mandato.
A eleição ocorreu em meio a preocupações com a segurança e forte escrutínio internacional, refletindo como as reformas legais podem remodelar os limites de mandato sem necessariamente remodelar o poder.
As eleições presidenciais deste ano evidenciam uma tensão persistente na política africana entre os processos democráticos formais e a concentração de poder. Embora as urnas tenham sido acionadas em todo o continente, os resultados sugerem que a realização de uma eleição não se traduz automaticamente em mudanças políticas significativas.
Os políticos em exercício e os líderes entrincheirados continuam a dominar o cenário político.
Em diversos países, de Camarões à Costa do Marfim, presidentes em exercício alavancaram suas vantagens institucionais, reconhecimento de nome e controle sobre os recursos do Estado para garantir mais um mandato. Essas vitórias refletem um padrão mais amplo, no qual a longevidade no poder muitas vezes supera a competitividade eleitoral.
A influência militar continua a moldar as transições políticas.
No Gabão e na Guiné, antigos líderes golpistas usaram eleições para legitimar a autoridade, transformando o poder militar em liderança civil sem abrir completamente o espaço político. Esses casos destacam como a linha divisória entre o controle autoritário e a legitimidade democrática está cada vez mais tênue.
Em suma, 2025 demonstra que as eleições africanas servem a múltiplos propósitos: podem confirmar o apoio público, sinalizar transições políticas ou legitimar o poder estabelecido. O desafio para 2026 e além será saber se as eleições evoluirão para ferramentas de aprofundamento democrático ou se continuarão a funcionar principalmente como instrumentos de consolidação da autoridade.