A polícia do Malawi prendeu no domingo o ex-ministro das Finanças sob suspeita de lavagem de dinheiro e abuso de poder, no mais recente episódio de uma crescente repressão pós-eleitoral contra ex-altos funcionários.
O Malawi entrou numa espiral de tensão política sem precedentes. Enquanto o ex-ministro das Finanças é levado sob custódia por crimes de corrupção, as ruas testemunham uma caça aos dissidentes que coloca em causa a legitimidade democrática do actual governo.
O Malawi está em estado de choque. A detenção do ex-ministro das Finanças, figura central da administração anterior, marca o início de uma “limpeza” que muitos consideram tardia, mas que outros denunciam como uma manobra política para consolidar o poder. O antigo governante é acusado de desvio de fundos públicos e abuso de poder, crimes que teriam deixado os cofres do Estado num estado de asfixia.
O Escândalo das Finanças
As investigações apontam para uma rede complexa de transferências ilegais e contratos fictícios que beneficiaram o círculo mais próximo do ex-presidente.
- O Valor do Desvio: Estimativas preliminares falam em milhões de dólares que deveriam ter sido aplicados em infraestruturas básicas e saúde.
- A Detenção: A operação policial foi rápida e estratégica, ocorrendo no meio da noite, o que alimentou as críticas de que o governo está a agir com base no espetáculo e não apenas na lei.
Repressão Pós-Eleitoral: O Silêncio Forçado
A prisão do ex-ministro não ocorre num vácuo. Desde as últimas eleições, o Malawi vive um clima de repressão contra jornalistas, activistas e membros da oposição.
- Detenções Arbitrárias: Relatos de abusos policiais e prisões sem mandato têm aumentado nas principais cidades.
- Censura Digital: O acesso a redes sociais tem sofrido interrupções intermitentes em momentos de protesto, isolando a população da comunidade internacional.
“A luta contra a corrupção é necessária, mas não pode ser usada como uma arma de guerra para aniquilar quem pensa diferente,” afirmou um representante de direitos humanos na região.
O Dilema da SADC
A situação no Malawi coloca a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) numa posição delicada. Se a repressão continuar, o país poderá enfrentar sanções ou isolamento diplomático, o que agravaria ainda mais a crise económica que já castiga a população.
Simplex Chithyola, líder da oposição no atual parlamento, entregou-se à polícia após saber que era procurado por investigadores, confirmou à AFP o seu advogado, George Kadzipatike, que também confirmou as acusações contra o seu cliente.
Chithyola foi ministro das Finanças entre 2023 e 2025 no governo do ex-presidente Lazarus Chakwera, que foi substituído nas eleições de setembro, marcadas pelo aumento do custo de vida no país da África Austral.
Figuras ligadas à antiga administração do Partido do Congresso do Malawi (MCP) estão sob escrutínio legal em uma série de investigações sobre alegada corrupção e má conduta financeira durante o seu mandato.
Chithyola chamou a atenção do público por ostentar riqueza durante sua campanha malsucedida para o cargo de secretário-geral do MCP.
Pelo menos oito ex-ministros ou figuras de alto escalão do governo do MCP foram detidos ou interrogados pelas autoridades, segundo uma contagem da AFP. Entre eles estão a ex-secretária presidencial e do gabinete, Colleen Zamba, e os ex-ministros do Comércio, do Governo Local, da Informação e da Agricultura.
Sosten Gwengwe, que antecedeu Chithyola no cargo de ministro das Finanças, também foi detido e libertado sob fiança.
Embora as autoridades ainda não tenham divulgado todos os detalhes dos casos, as prisões apontam para os esforços da administração do presidente Peter Mutharika em rever decisões e transações de seu antecessor.
A polícia não informou quando Chithyola comparecerá ao tribunal. O ex-ministro não se pronunciou publicamente sobre as acusações.
