Democratas ganham o Congresso e gestor antevê bom cenário para Wall Street

Para Marcelo Cabral, da Stratton Capital, um governo dividido nos EUA reduz a incerteza e favorece acções e obrigações. O Goldman Sachs aponta riscos, sobretudo nos centros de dados.
Democratas ganham o Congresso e gestor antevê bom cenário para Wall Street

A vitória do Partido Democrata nas eleições intercalares dos Estados Unidos, que superou as expectativas e garantiu o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado, deverá ter um efeito positivo sobre os mercados norte-americanos. A avaliação é de Marcelo Cabral, gestor de investimentos e sócio-fundador da Stratton Capital, com sede em Nova Iorque.

Preferência pela paralisia política

Segundo o gestor, os mercados preferem um governo dividido, em que a Presidência e o Congresso estão nas mãos de partidos diferentes, a um executivo com carta branca para intervir na economia. "A falta de consenso impede a introdução de mudanças legislativas drásticas e abrangentes, limitando a interferência de Washington no andamento da economia", explica.

Cabral sublinha a diferença de percepção entre países. Se no Brasil a palavra "paralisia" evoca crise e desgoverno, nos Estados Unidos o "gridlock" é visto como uma óptima notícia para os investidores, porque, sem leis e reformas novas, os políticos interferem menos na economia.

Três factores de optimismo

O gestor aponta três razões para o optimismo. A primeira é a perspectiva mais favorável para o défice público, o que alivia a pressão sobre as taxas de juro. Na sua opinião, um Congresso de maioria democrata deverá bloquear novas iniciativas de despesa e reduções de impostos.

A segunda é a redução do prémio de risco político incorporado nos preços dos activos: com o resultado conhecido e o equilíbrio de poderes definido, a incerteza diminui, o que tende a valorizar esses activos.

A terceira assenta no historial. Desde 1950, o índice S&P 500 registou uma valorização média de cerca de 15% nos 12 meses seguintes às eleições intercalares, independentemente do resultado.

Tecnologia, obrigações e dólar

Na bolsa, Cabral considera que um governo dividido tende a manter o actual ambiente regulatório, favorável às grandes tecnológicas. Alguns deputados democratas defenderam maior supervisão da inteligência artificial (IA) e moratórias à construção de novos centros de dados, mas a paralisia legislativa torna improvável a aprovação de proibições amplas ou de regras demasiado restritivas.

Na renda fixa, a melhoria das expectativas orçamentais deverá aliviar os juros e impulsionar os preços das obrigações do Tesouro norte-americano. Com a queda das taxas, o gestor acredita que o dólar tenderá a enfraquecer face às outras moedas fortes.

Goldman Sachs com leitura distinta

Num relatório, o Goldman Sachs entende que os democratas deverão aproveitar os prazos de financiamento do Governo e do tecto da dívida para tentar limitar a guerra com o Irão, reduzir algumas tarifas e reverter cortes de despesa aprovados no ano passado. A reversão desses cortes contrasta com a expectativa de Cabral de que o novo Congresso trave o aumento da despesa pública.

O banco considera menos prováveis alterações à regulação de centros de dados e de IA, que exigiriam apoio dos dois partidos no Senado e teriam de superar um eventual veto presidencial. Por outro lado, as vitórias democratas em governos estaduais e locais deverão originar moratórias de curto prazo para centros de dados, com potencial para afectar cerca de 45% da expansão planeada da capacidade do sector no país.

Com informação de InfoMoney.

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