A reeleição do Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno, provocou uma reação negativa imediata nos mercados financeiros. Na noite de domingo (25), o real recuou cerca de 10% no mercado futuro da CME, em Chicago, e o EWZ, principal ETF brasileiro negociado nos Estados Unidos, caía quase 20% no aftermarket.
Um resultado que o mercado não previa
Às 22h20 (hora de Brasília), o contrato do dólar com vencimento em novembro registava uma subida que implicava uma baixa de 10,02% do real. O dólar implícito para segunda-feira (26) situava-se em R$ 5,56. Com 99,78% das urnas apuradas, Lula somava 51,76% dos votos válidos, contra 48,24% de Flávio Bolsonaro.
O desfecho contrariou as expectativas. Segundo o economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, todas as 13 sondagens por si analisadas davam vantagem a Flávio Bolsonaro, em média de 2,4 pontos percentuais. Mendes sublinha que a probabilidade de 3,74% obtida numa simulação estatística depende dos pressupostos do modelo e não representa a probabilidade real de vitória.
O que dizem os analistas
Para Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, o mercado vinha a incorporar nos preços a hipótese de uma mudança na política fiscal, com maior controlo da despesa pública. Com a vitória de Lula, que não tem maioria própria no Congresso, essas expectativas terão de ser revistas. O analista prevê uma semana de cautela, com o Ibovespa sob pressão, dólar em alta e subida dos juros futuros.
Gabriel Uarian, da Cultura Capital, admite uma queda superior a 5% do Ibovespa e até o risco de acionamento do circuit breaker. Já Gabriel Pinheiro, da GT Capital, recorda que o índice subiu 7,7% no primeiro pregão após a primeira volta, chegando aos 209,6 mil pontos, com o dólar a R$ 5,00. Antes dessa votação, o Ibovespa rondava os 192 mil pontos e o dólar estava em R$ 5,22. Na sua leitura, a reeleição obriga a desfazer boa parte desse movimento.
Felipe Balassiano, do ASA, espera um "ajuste severo de preços" na abertura, até que o novo governo reforce o compromisso com a responsabilidade fiscal. Gustavo Sung, da Suno Research, vê volatilidade cambial, com o dólar a estabilizar em torno de R$ 5,40 em 2027.
Sectores em destaque
Os analistas apontam como mais vulneráveis as empresas ligadas ao mercado doméstico e ao crédito: retalho, construção, bancos de crédito ao consumo, consumo discricionário e empresas muito endividadas. A atenção deverá recair também sobre empresas com participação estatal, como o Banco do Brasil e a Petrobras. Em sentido inverso, exportadoras e empresas com receitas em dólar, sobretudo de mineração e agronegócio, tendem a ter melhor desempenho relativo, beneficiadas pela desvalorização do real.
Investidores já esperavam o pior
Um inquérito do Citi a investidores, realizado na sexta-feira, indica que 79,5% esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula. No câmbio, 63% projetavam uma desvalorização do real acima de 5%. Nos juros, 67,1% previam uma subida superior a 100 pontos-base no DI de janeiro de 2029.
Segundo o banco, a trajectória fiscal continua a ser o principal factor de preços dos activos brasileiros. Os primeiros sinais do governo sobre a equipa económica, o controlo das contas públicas e a articulação com o Congresso serão decisivos para determinar se a reacção inicial é passageira ou dá lugar a uma deterioração mais duradoura.
Mendes aponta ainda um factor institucional: a decisão extraordinária do STF de prolongar a votação até às 19h, quando várias urnas já tinham encerrado, acrescenta incerteza, ainda que se tenha esclarecido que essas urnas não seriam reabertas.
Com informação de InfoMoney.
