Nos corredores espelhados do Vale do Silício, o futuro da inteligência artificial é frequentemente descrito como algo etéreo: nuvens de dados, redes neurais invisíveis e algoritmos que aprendem sozinhos. Mas a cerca de nove mil quilômetros dali, na cidade industrial de Pyeongtaek, na Coreia do Sul, o verdadeiro motor dessa revolução tem um peso muito físico, cheira a silício purificado e acaba de gerar a quantia de dinheiro mais extraordinária já vista na história do capitalismo corporativo.
A Samsung Electronics anunciou na manhã desta quinta-feira um lucro trimestral astronômico de US$ 80 bilhões. O número não apenas estilhaçou as projeções de Wall Street, mas reescreveu os livros de recordes, marcando o trimestre mais lucrativo já registrado por qualquer empresa de tecnologia. O feito desbanca com folga os ápices históricos da Apple durante os superciclos do iPhone e os picos da Microsoft no auge de sua expansão em nuvem.
A força motriz por trás desse tsunami financeiro não são os smartphones ou os luxuosos televisores da marca, mas sim pequenos e complexos blocos de silício conhecidos como chips de memória de alta largura de banda, ou HBM. À medida que gigantes como OpenAI, Meta, Google e Microsoft correm desesperadamente para treinar modelos de linguagem cada vez maiores, a infraestrutura física necessária para suportar essa matemática titânica tornou-se o recurso mais escasso do planeta. A Samsung provou possuir a chave desse cofre.
“O que estamos vendo não é apenas um ciclo sazonal forte de vendas, mas a capitalização brutal de um gargalo tecnológico global”, observou Clara Wu, diretora de pesquisas de semicondutores do Goldman Sachs em Hong Kong. “A febre da IA gerou uma corrida do ouro insana, e os pioneiros do software estão gastando bilhões quase às cegas. A Samsung é a fornecedora definitiva das pás e picaretas. O balanço financeiro de hoje prova que, por enquanto, o hardware vence o software em rentabilidade pura.”
O impacto desse boom reverbera muito além das planilhas de Seul. A notícia impulsionou o índice Kospi a patamares inéditos, enquanto autoridades do governo sul-coreano encaram os números como a consolidação final do país como uma peça insubstituível no xadrez da tecnologia global. Contudo, a ascensão vertiginosa também atrai as tensões de uma guerra fria em curso.
A Samsung caminha sobre uma corda bamba geopolítica cada vez mais fina. Enquanto Washington tenta sufocar o avanço militar e tecnológico de Pequim por meio de embargos rigorosos a chips de IA, a fabricante sul-coreana precisa proteger sua vasta rede de clientes convencionais na China, ao mesmo tempo em que garante sua aliança estratégica com os Estados Unidos. Com US$ 80 bilhões em lucro trimestral, a empresa ganha um poder de barganha sem precedentes, mas transforma suas fábricas em ativos cruciais para a segurança nacional de ambas as superpotências.
Dentro do megacomplexo de Pyeongtaek, a única preocupação imediata parece ser a física. As linhas de produção operam em um regime frenético e contínuo, em ambientes mil vezes mais limpos que um centro cirúrgico, forjando incansavelmente as memórias que darão vida às mentes artificiais do Vale do Silício na próxima geração.
Ao converter a promessa abstrata da IA em montanhas de dinheiro real, a Samsung encerrou um longo debate no mercado financeiro. O futuro, de fato, pode pertencer aos algoritmos virtuais, mas o pedágio para se chegar lá pertence, inquestionavelmente, à Coreia do Sul.
