Angola vive um momento singular no que diz respeito ao empreendedorismo jovem. Num país em que mais de 60% da população tem menos de 25 anos, a juventude angolana já não é apenas o futuro — é, cada vez mais, o presente da diversificação económica que o país precisa.
Nos últimos meses, uma sucessão de iniciativas de grande dimensão colocou o jovem empreendedor angolano no centro da agenda de desenvolvimento nacional. Os números falam por si.
Projecto Crescer: 124,6 milhões de dólares para mudar vidas
Em Outubro de 2025, o Governo angolano lançou o Projecto Crescer, uma iniciativa intersetorial tutelada pelo Ministério do Planeamento, financiada pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e pela União Europeia, com um envelope total de 124,6 milhões de dólares. O projecto estende-se até 2029 e abrange 11 províncias do país.
As metas são ambiciosas: criar 37.430 postos de trabalho directos, gerar 112.290 empregos indirectos, capacitar digitalmente 97.569 jovens e acelerar o desenvolvimento de 10.400 micro empresas. O foco recai sobre sectores estratégicos como a agricultura, a aquicultura, os transportes e as energias renováveis. Pelo menos 50% dos beneficiários deverão ser mulheres, num sinal claro de aposta na equidade de género.
“O Projecto Crescer constitui um investimento no futuro de Angola pela aposta na modernização das instituições de ensino, reforço de incubadoras e na aproximação entre o sector privado e a juventude”, afirmou o ministro do Planeamento, Victor Hugo Guilherme.
Banco Mundial reforça aposta: mais 250 milhões de dólares
Em Março de 2025, o Banco Mundial aprovou um financiamento de 250 milhões de dólares para o Projecto de Oportunidades de Emprego para os Jovens de Angola (AYEOP), com o objectivo de beneficiar cerca de 500.000 pessoas entre os 16 e os 35 anos. “Este projecto apoia os esforços do governo para a diversificação económica, garantindo que os jovens adquiram competências relevantes, ganhem experiência e tenham acesso a oportunidades de iniciativas económicas”, explicou Juan Carlos Alvarez, representante do Banco Mundial para Angola.
AJEA lança plano para formar 20 mil jovens em 2026
A Associação de Jovens Empreendedores de Angola (AJEA) definiu a formação como um dos 14 eixos prioritários para 2026, com o compromisso de capacitar mais de 20.000 jovens em empreendedorismo ao longo do ano. O presidente da AJEA, Alfredo Nguli Cangonga, anunciou também diligências junto das instituições bancárias para facilitar e bonificar o acesso ao crédito para jovens com iniciativa empreendedora.
Desafio Genial: inovar com propósito
O Desafio Genial: Geração Digital está na sua terceira edição, a decorrer entre Abril e Outubro de 2026. Organizado pelo UNICEF em parceria com o Ministério da Juventude e Desportos e o Ministério da Educação, com o apoio do Grupo NELT, o programa aposta na transformação digital como motor de inovação. Na edição anterior, mais de 250 equipas de diferentes províncias participaram na competição.
Do papel às empresas reais
A JMPLA visitou em Março de 2026 empresas dirigidas por jovens em Luanda. Entre os destaques esteve a Lwei Brokers, a maior corretora independente de valores mobiliários do país, e o Ateliê Adão Mussungo — projectos que asseguram em conjunto mais de 600 postos de trabalho, na sua maioria ocupados por jovens. “Os jovens transformam ideias inovadoras em projectos sustentáveis, capazes de gerar impacto social e económico”, sublinhou Kelvin John, secretário do Departamento de Projectos Multidisciplinares e Empreendedorismo da JMPLA.
Ecossistema em construção
O IAPMEI português lançou o programa Envolver+ em Luanda, com financiamento de 2,5 milhões de euros da União Europeia, válido até Julho de 2028. O programa aposta no fortalecimento das incubadoras angolanas e no apoio técnico directo a empreendedores, financiando serviços em vez de distribuir capital — uma abordagem que privilegia a sustentabilidade dos projectos a longo prazo.
O retrato que emerge é de um ecossistema ainda jovem, mas em acelerada maturação. Angola tem hoje, em simultâneo, financiamento internacional de grande escala, programas de capacitação domésticos e exemplos concretos de empresas jovens bem-sucedidas. O desafio está, agora, em transformar este impulso em estrutura — em garantir que os próximos empreendedores angolanos não precisem de esperar por um projecto do Banco Mundial para arriscar a primeira ideia.
