Milhares de famílias que escaparam à limpeza étnica e aos combates no Sudão encontram agora um novo inimigo na República Centro-Africana: a negligência e a escassez extrema. A ajuda internacional é quase inexistente e o tempo está a esgotar-se.
BIRÃO, RCA – O termo “desastre humanitário” já não é suficiente para descrever o que se vive no nordeste da República Centro-Africana. Cerca de 30.000 refugiados sudaneses estão amontoados em campos improvisados na região de Vakaga, sobrevivendo em condições que desafiam a dignidade humana. Sem acesso a água potável, comida ou cuidados médicos básicos, a taxa de mortalidade infantil começou a subir de forma alarmante.
O Retrato do Caos
Os relatos que chegam das zonas fronteiriças são de cortar a respiração. As famílias chegam a pé, após semanas de caminhada sob o sol escaldante, apenas para encontrar um país que, embora acolhedor, mal consegue alimentar a sua própria população.
- Fome Extrema: As rações alimentares foram reduzidas ou são inexistentes. Em muitos campos, os refugiados sobrevivem com apenas uma refeição de raízes e folhas por dia.
- Colapso Sanitário: Com a chegada da época das chuvas, o risco de surtos de cólera e malária é uma bomba-relógio. Não existem latrinas suficientes e a água consumida provém de poços contaminados.
- Insegurança Total: A região de Birão é isolada e de difícil acesso, o que impede a chegada de camiões com mantimentos de grande escala, tornando o transporte aéreo — caríssimo — a única via de salvação.
Um Apelo no Vazio
As agências da ONU e as poucas ONGs no terreno (como os Médicos Sem Fronteiras) lançaram um alerta vermelho: os fundos acabaram. A República Centro-Africana, já devastada por anos de conflito interno, não tem infraestruturas para suportar este fluxo migratório.
“Estas pessoas fugiram das balas no Sudão para morrerem de fome na RCA. O mundo virou as costas e o silêncio é cúmplice deste massacre silencioso”, desabafou um coordenador humanitário local.
O Impacto Geopolítico
A instabilidade nesta zona de fronteira tripla (Sudão, Chade e RCA) ameaça criar um corredor de caos permanente na África Central. A pressão sobre os recursos locais está a gerar tensões entre os refugiados e as comunidades anfitriãs, que também vivem na miséria extrema.
O número de pessoas necessitadas ultrapassa em muito a capacidade da assistência humanitária por si só.
Conflitos, particularmente no sudeste e oeste, epidemias e choques relacionados ao clima continuam sendo as causas principais das vulnerabilidades que levam a necessidades humanitárias.
Sem maior visibilidade, solidariedade e engajamento político, essa crise silenciosa corre o risco de se agravar e alimentar a instabilidade regional. A dinâmica regional está exacerbando condições já frágeis.
A guerra no Sudão provocou fluxos populacionais significativos para a República Centro-Africana, que abriga 35.048 refugiados sudaneses (dados de março de 2026), particularmente em Birao, na prefeitura de Vakaga, no noroeste do país, onde a população dobrou desde então, sobrecarregando recursos já escassos.
Mais de 120 bases humanitárias pertencentes a 60 organizações fecharam desde 2025 devido à falta de financiamento, incluindo seis em Vakaga, que abrigam 62% dos refugiados sudaneses.
Sem apoio imediato, robusto, sustentável, direcionado e flexível, a República Centro-Africana corre o risco de uma crise humanitária ainda mais grave, que poderia prejudicar toda a região.
Apesar desses desafios, Fatna Saleh Youssouf, mãe solteira de um filho que perdeu a perna em uma explosão durante a guerra no Sudão, se recusa a desistir.
Graças ao apoio que recebeu de organizações humanitárias, ela vende donuts para sustentar a si mesma e ao filho, personificando a resiliência e a esperança para milhares de refugiados sudaneses.