Angola vive um dos momentos sociais mais sensíveis da sua história recente. O desemprego cresce, o custo das cestas básicas pressiona as famílias e o poder de compra encolhe a cada mês. É neste contexto que o Governo decidiu avançar com um investimento superior a 200 milhões de euros para a reabilitação da urbanização Nova Vida, em Luanda. A pergunta impõe-se: é esta a prioridade certa quando tantos angolanos lutam para sobreviver?
O Projeto Nova Vida não é um capricho recente. Trata-se de uma das mais emblemáticas urbanizações do país, concebida no pós-guerra como símbolo de reconstrução e esperança. Com o passar dos anos, a falta de manutenção transformou o que deveria ser um modelo urbano num espaço marcado por estradas degradadas, saneamento deficiente e serviços precários. Ignorar esta realidade seria, sem dúvida, irresponsável.
No entanto, governar é escolher — e escolher implica assumir custos. Os mais de 200 milhões de euros agora mobilizados poderiam financiar programas de emprego, reforçar a produção agrícola nacional ou aliviar diretamente o peso das cestas básicas sobre milhões de famílias. O dilema não está em saber se o Nova Vida precisa de reabilitação, mas se este é o momento certo para tamanha despesa pública.
Defensores do investimento argumentam que a reabilitação gera emprego, dinamiza a construção civil e preserva um ativo urbano valioso. É verdade. Mas também é verdade que estes empregos são temporários e que o impacto económico não chega à mesa da maioria dos angolanos. Para quem não tem trabalho nem comida suficiente, estradas reabilitadas noutro bairro parecem um luxo distante.
Há ainda a questão da perceção pública. Num país onde a desigualdade é visível, investir fortemente numa urbanização específica pode ser visto como uma decisão desconectada da realidade da maioria. A política pública não se mede apenas por relatórios técnicos, mas também pela confiança que gera nos cidadãos.
Isso não significa que o investimento seja, por si só, errado. Pelo contrário: abandonar o Nova Vida seria repetir erros do passado e aceitar a degradação de património público construído com recursos do Estado. O problema surge quando esse investimento não é acompanhado por políticas sociais robustas e visíveis.
Se o Governo pretende justificar esta decisão perante a sociedade, precisa ir além do betão e do asfalto. É essencial que a reabilitação do Nova Vida caminhe lado a lado com programas sérios de criação de emprego, apoio à produção nacional e medidas concretas de proteção social. Caso contrário, corre-se o risco de melhorar prédios enquanto se ignora pessoas.
No fim, o verdadeiro debate não é “Nova Vida ou cestas básicas”. O desafio é garantir que Angola consiga investir em infraestrutura sem esquecer que desenvolvimento começa com dignidade humana. Uma cidade bonita não substitui um prato de comida, mas um país que não cuida das suas cidades também não constrói futuro.
A sensatez está no equilíbrio. E, neste momento, Angola precisa desesperadamente dele.
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