A vaga democrata nas eleições intercalares de 3 de Novembro devolveu ao partido o controlo do Congresso dos Estados Unidos e foi lida como uma resposta ao modo como Donald Trump governa. Para vários analistas, foi também um sinal de desconfiança do eleitorado perante o poder das grandes tecnológicas e o avanço da inteligência artificial (IA).
Centros de dados em causa
Além das disputas para governos estaduais, Câmara dos Representantes e Senado, os eleitores foram chamados a pronunciar-se, em várias regiões, sobre restrições à instalação de centros de dados que sustentam a expansão das gigantes tecnológicas. Segundo dados da Redbud Consulting, empresa de investigação e ciência de dados sediada em Washington, o eleitorado posicionou-se contra o desenvolvimento destas infra-estruturas em 46 de 47 consultas regionais.
A excepção foi Harwood, localidade do Dakota do Norte com menos de mil habitantes, onde foi rejeitada uma medida que daria aos moradores maior influência sobre grandes projectos, como centros de dados de IA.
Ansiedade para lá das linhas partidárias
Graham Brookie, vice-presidente de programas e estratégia de tecnologia do Atlantic Council, afirmou que a ansiedade dos americanos em relação à tecnologia ficou patente nos resultados. Citou uma sondagem à boca das urnas da NBC News, segundo a qual 56% dos eleitores consideraram a IA e a infra-estrutura associada um factor “crucial ou importante” no voto para o Congresso. Referiu ainda que 75% dos americanos encaram a IA com medo ou preocupação, sobretudo os mais jovens.
Segundo Brookie, o cepticismo atravessou os partidos: candidatos republicanos, do Michigan ao Texas, defenderam abrandar a construção de infra-estrutura de IA ou reforçar a regulação. O analista prevê que propostas bipartidárias sobre segurança da IA, como o Frontier Act ou o AI Kill Switch Act, regressem ao novo Congresso.
Mercados em queda
O Nasdaq fechou a sessão de quinta-feira com forte descida, a maior num só dia em 19 meses, e cerca de 3 biliões de dólares evaporaram-se do valor de mercado das empresas do S&P 500. O índice de semicondutores da Filadélfia caiu mais de 12% e as acções da Nvidia mais de 9%. Brookie notou que a eleição ocorreu uma semana após uma forte venda de activos tecnológicos, motivada por resultados abaixo do esperado na indústria de IA.
Trump atribuiu o dia negativo na bolsa ao resultado eleitoral, na rede Truth Social. Na sexta-feira, 6, voltou a publicar sobre o tema, dizendo-se “100% a favor” da superinteligência e prometendo trabalhar com os estados que queiram “ficar ricos” ao adoptá-la. Analistas citados pela imprensa admitem que o controlo democrata das duas câmaras possa tornar o ambiente mais exigente para as empresas de IA, com perspectiva de regulação mais intensa.
Jeffries e a ligação a Cabo Verde
A vitória democrata deverá levar Hakeem Jeffries, de 55 anos, à presidência da Câmara dos Representantes, se for eleito quando o novo Congresso tomar posse, a 3 de Janeiro. Seria o primeiro afro-americano no cargo em 237 anos. Segundo uma investigação da genealogista Megan Smolenyak, um quarto da sua herança, a contar dos bisavós, é cabo-verdiana: o bisavô Manuel Gomes partiu da ilha do Fogo para os Estados Unidos em 1915 e acabou por regressar à terra natal, onde morreu em 1974, em São Filipe.
