Investigadores chineses: Trump prepara terreno para deixar Taiwan à sua sorte

Dois académicos da CASS defendem que a política de "redução de riscos" de Trump pode ser o primeiro passo para abandonar Taiwan, ao fragmentar o consenso norte-americano que sustentou a ilha durante décadas.
Investigadores chineses: Trump prepara terreno para deixar Taiwan à sua sorte

Dois académicos chineses sustentam que a política do Presidente norte-americano, Donald Trump, procura retirar o máximo de benefícios económicos e estratégicos de Taiwan, ao mesmo tempo que diminui o risco de uma intervenção militar. Na sua leitura, esse caminho poderá preparar um eventual abandono da ilha.

A tese consta de uma análise publicada na revista académica Taiwan Studies, do Instituto de Estudos de Taiwan da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS). Os autores, Guan Chenglong e Yuan Zheng, este último vice-director do Instituto de Estudos Americanos da CASS, afirmam que a política de Washington para Taiwan atravessa uma transformação profunda, marcada pela erosão do consenso estratégico que durante décadas sustentou o apoio à ilha.

Cinco correntes em disputa

O estudo, intitulado "O debate sobre a política dos Estados Unidos para Taiwan: divisões entre correntes e fragmentação do consenso", examina as posições de especialistas norte-americanos desde 2020 e a influência que tiveram nas administrações de Joe Biden e de Trump.

Os investigadores identificam cinco correntes: os defensores de um compromisso explícito de defesa de Taiwan, os partidários de reforçar a dissuasão, os defensores tradicionais do "status quo" e duas correntes favoráveis ao abandono da ilha, uma gradual e outra imediata.

Durante décadas, segundo explicam, prevaleceu o "status quo", assente na chamada "ambiguidade estratégica", pela qual Washington evita esclarecer se intervirá militarmente caso a China ataque. O reforço militar de Pequim e a rivalidade sino-americana fragmentaram, porém, esse entendimento. As posições tradicionais "já não reúnem o amplo apoio de que anteriormente beneficiavam", escrevem.

Uma abordagem transaccional

Segundo a análise, o debate na Administração Biden centrou-se na hipótese de trocar a ambiguidade por um compromisso explícito de defesa. Trump, pelo contrário, adoptou uma abordagem mais transaccional, subordinando a questão de Taiwan às negociações económicas e estratégicas com Pequim.

Para os autores, a actual Administração mantém a ambiguidade estratégica não por reconhecer a complexidade do dossiê, mas porque isso facilita as negociações com a China e reduz o risco de envolvimento num conflito. "Para Trump, o valor estratégico de Taiwan é largamente ultrapassado pelo da China continental", sustentam.

A estratégia de "redução de riscos" passaria, de acordo com o estudo, por aumentar as despesas militares de Taiwan, reduzir o défice comercial bilateral e transferir parte da produção de semicondutores para território norte-americano, além de repartir responsabilidades com os aliados regionais dos EUA. Os investigadores concluem que esta política é "sem dúvida, um prelúdio para o eventual abandono de Taiwan".

Defesa assimétrica e semicondutores

Os académicos apontam, ainda assim, um ponto de convergência entre as várias correntes: a necessidade de Taiwan reforçar as suas capacidades militares. Existiria um "consenso mínimo" em torno de uma defesa assimétrica, pensada para tornar uma invasão chinesa mais difícil e dispendiosa.

A análise sublinha também a pressão para que Taiwan desloque uma parcela significativa da produção de semicondutores, sector em que a ilha ocupa posição central nas cadeias de abastecimento mundiais. Os autores admitem que seja improvável um abandono público, mas defendem que a promoção da "autossuficiência defensiva" e a perda da TSMC, o maior fabricante mundial de semicondutores, poderão privar Taiwan do seu valor estratégico para os Estados Unidos.

Contexto

A China considera Taiwan parte do seu território e não exclui o uso da força para alcançar a reunificação, enquanto o Governo de Taipé rejeita as reivindicações de soberania de Pequim. Os Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas oficiais com Taiwan, mas são o seu principal fornecedor de armamento e continuam a praticar a ambiguidade estratégica quanto a uma eventual intervenção militar.

Com informação de Notícias ao Minuto — Mundo, RTP — Mundo.

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