Uma semana após os históricos terremotos gêmeos na Venezuela, médicos disseram na quarta-feira que os maiores perigos que os sobreviventes enfrentam agora são feridas não tratadas e doenças infecciosas.
Milhares de venezuelanos deslocados dormem em abrigos superlotados ou ao relento, sem acesso a água potável, em meio a condições sanitárias precárias após os terremotos de 24 de junho. Equipes de ajuda humanitária afirmaram que a situação se transformou em uma grave crise de saúde pública que, se não for controlada rapidamente, causará ainda mais mortes nos próximos dias e semanas.
“O problema que prevemos para o futuro próximo são as infecções que os pacientes expostos ao desastre por mais tempo podem trazer”, disse Eugenio Cova, chefe da unidade de trauma do Hospital del Oeste Dr. José Gregor Hernández, em Caracas, a capital.
O hospital tratou dezenas de pessoas gravemente feridas desde o terremoto, apesar da escassez de equipamentos médicos essenciais. Cova afirmou que o hospital público, cujas instalações estão parcialmente inacessíveis devido a possíveis danos causados pelo terremoto, carece de parafusos e placas necessários para cirurgias ortopédicas, bem como de gaze medicada para prevenir infecções. Segundo o governo, os terremotos danificaram ou comprometeram de alguma forma 38 hospitais em todo o país.
“Já passamos pelo período de trauma complexo — que continuará a ocorrer — mas agora a situação é agravada pelas infecções”, acrescentou Cova.
Mesmo com a janela de oportunidade cada vez menor para a busca por sobreviventes presos sob os escombros, equipes de especialistas de mais de duas dezenas de países intensificaram as operações de resgate na quarta-feira. Contra todas as expectativas — a janela de sobrevivência para quem fica preso sob os escombros é normalmente de 48 a 72 horas — as equipes continuam encontrando um pequeno número de sobreviventes, incluindo uma criança que estava presa há seis dias na terça-feira.
Os Estados Unidos, que assumiram o controle da indústria petrolífera da Venezuela após a deposição do ex-líder Nicolás Maduro em janeiro, intensificaram sua assistência nos últimos dias, com 900 militares atualmente apoiando os esforços de socorro e resgate, segundo informações de Steven McCloud, porta-voz do Comando Sul dos EUA, à Associated Press. Outros 100 funcionários do Departamento de Estado americano foram enviados para auxiliar nos trabalhos de ajuda humanitária no terreno, acrescentou.
Autoridades venezuelanas contabilizaram mais de 1.900 mortes em decorrência dos terremotos até terça-feira, um número que aumenta diariamente. Milhares de pessoas continuam desaparecidas, o que aumenta a incerteza sobre o número total de vítimas e deixa famílias em um limbo angustiante, aguardando dias junto aos escombros, na esperança de que os corpos de seus entes queridos sejam encontrados.
Uma base de dados digital não governamental, onde as famílias podem registar os seus entes queridos desaparecidos, indicava que, na quarta-feira, mais de 40.600 pessoas permaneciam desaparecidas.
