Milei, o último a calar: Argentina sem felicitar Lula na América do Sul

O presidente argentino era o único líder sul-americano que ainda não tinha reconhecido a vitória de Lula da Silva nas eleições brasileiras, segundo o G1. A relação entre ambos está marcada por trocas de ataques.
Milei, o último a calar: Argentina sem felicitar Lula na América do Sul

O presidente da Argentina, Javier Milei, era o único chefe de Estado da América do Sul que ainda não tinha reconhecido a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras, até à última segunda-feira (26), de acordo com o G1. A maioria dos líderes da região, vários deles de direita, já felicitou o Presidente brasileiro reeleito.

Reações na região

O colombiano Abelardo de La Espriella, eleito com o apoio do Presidente norte-americano, Donald Trump, e que apoiou publicamente a campanha derrotada de Flávio Bolsonaro, afirmou não ter afinidade com Lula e situar-se no lado oposto do espectro político. Ainda assim, ao reconhecer o resultado, manifestou abertura para que os dois países continuem a cooperar.

O equatoriano Daniel Noboa referiu que a América Latina tem inimigos comuns e desafios partilhados. O chileno José Antonio Kast disse ter telefonado a Lula para o cumprimentar e falou num futuro em comum. A peruana Keiko Fujimori defendeu o reforço da aliança estratégica, com ênfase na integração, na cooperação e no desenvolvimento sustentável da Amazónia partilhada. O boliviano Rodrigo Paz destacou os laços históricos entre os dois países.

Segundo o G1, todos estes líderes tiveram o apoio de Trump nas respetivas campanhas e integram o Escudo das Américas, aliança de cooperação militar, política e económica liderada pelos Estados Unidos para combater organizações criminosas transnacionais e o narcotráfico. Também felicitaram Lula os presidentes do Uruguai, Yamandú Orsi; da Venezuela, Delcy Rodríguez; do Paraguai, Santiago Peña; da Guiana, Irfaan Ali; e do Suriname, Jennifer Geerlings-Simons.

Uma relação desgastada

Milei apoiou Flávio Bolsonaro durante a campanha e, na véspera da votação, criticou Lula nas redes sociais, chamando-lhe “ladrão corrupto” e acusando-o de fazer uma campanha suja.

Os ataques não são novos. Em agosto, na convenção do PL em São Paulo, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei chamou “presidiário” a Lula e “lixo careca” ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Dias depois, numa entrevista, acusou o Brasil de liderar uma “campanha anti-Argentina” durante o Mundial e afirmou que Lula enviou marqueteiros para interferir nas eleições argentinas de 2023, em apoio a Sergio Massa. Numa outra entrevista, repetiu que Lula é “ladrão” e corrupto e voltou a questionar as decisões do STF que anularam as condenações do líder do PT na Lava Jato. Garantiu ainda que as ofensas foram “palavras espontâneas”.

O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires. O Governo brasileiro classificou o episódio como “sem precedentes”, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mauro Vieira, considerou-o grave, mas afastou então medidas mais duras. Lula começou por evitar a polémica, perguntando “Quem é esse cara?”, mas acabou por classificar a participação de Milei no evento do PL como uma “patacoada”.

Peso económico

O silêncio de Milei tem relevância pela dimensão da relação bilateral. Em 2025, o Brasil foi o principal destino das exportações argentinas, com mais de 12,8 mil milhões de dólares, e a maior origem das importações, com 18,4 mil milhões de dólares, segundo dados do Governo argentino. Os dois países têm forte integração industrial e um papel central no Mercosul.

A situação ocorre num contexto de avanço da direita na América do Sul e de aproximação de governos conservadores à Administração republicana dos Estados Unidos.

Com informação de G1 — Mundo.

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