Em uma praia rochosa de Cabo Verde, Maria e Vania enchem seus baldes com areia preta assim que as ondas recuam, transportando-a sobre suas cabeças até um depósito onde será vendida ilegalmente.
As mulheres lutam para se manter de pé contra o mar agitado enquanto equilibram as cargas, que pesam dezenas de quilos.
A praia está longe da imagem típica de cartão-postal do arquipélago da África Ocidental, e Vania Tavares faz o sinal da cruz antes de entrar em suas ondas perigosas.
As mulheres, conhecidas como “ladras de areia”, realizam essa tarefa árdua quase diariamente há mais de 15 anos para sobreviver em uma das regiões mais pobres do arquipélago.
Com expressões solenes, as duas, juntamente com outras quatro mulheres vizinhas, movem-se numa dança silenciosa que dura horas durante a maré baixa na Praia do Charco, perto da cidade de Ribeira da Barca, localizada na ilha principal de Santiago.
A figura esguia de Maria Eleonore Monteiro oscila sob o peso do balde enquanto ela sobe em direção à terra firme para despejá-lo ao lado de uma dúzia de grandes pilhas, que serão vendidas a empreiteiros ou revendedores.
Os compradores pagam cerca de 140 dólares por uma carga de areia marinha, frequentemente recolhida ao longo de semanas, o que ainda é mais barato do que a areia extraída legalmente das pedreiras.
“É a minha única alternativa, não tenho outro emprego”, disse Monteiro à AFP, exausto após uma visita aos aterros sanitários.
Suas pernas estão cheias de cicatrizes devido a quedas e acidentes nas rochas: “Passei tanto tempo juntando areia que agora tenho dores nas costas. Às vezes, passo três dias na cama”, disse ela.
– Pedras e crateras –
Longe das praias paradisíacas de areia branca ou preta encontradas em algumas ilhas de Cabo Verde, Ribeira da Barca não atrai turistas, assim como a maioria das zonas litorâneas da Ilha de Santiago.
Durante décadas, esses locais serviram como minas artesanais a céu aberto para a extração de areia, vendida a preços irrisórios, deixando para trás uma paisagem desolada de pedras e crateras.
A praia propriamente dita em Charco praticamente desapareceu, obrigando as mulheres a retirar a areia restante da água, embora muitas delas não saibam nadar.
A extração de areia é ilegal em Cabo Verde, de acordo com leis aprovadas entre 1997 e 2017, sendo passível de multas ou prisão.
No entanto, a prática persiste, com as autoridades por vezes fechando os olhos quando se trata de sobrevivência.
As mulheres entrevistadas pela AFP não tiveram nenhum problema com a polícia nos últimos três anos.
Sendo o único recurso natural no empobrecido arquipélago, a areia impulsionou a expansão urbana nas décadas de 1980 e 1990.
Grande parte da capital, Praia, foi literalmente construída com ele, disse à AFP Ana Veiga, diretora da ONG Lantuna.
Para chegar à praia isolada onde recolhem areia, Monteiro e os seus vizinhos caminham meia hora desde a sua comunidade pobre, que não tem água corrente.
É aqui que Tavares também mora. Ela foi obrigada a abandonar a escola aos 13 anos para trabalhar e, nos últimos 16 anos, tem extraído areia para sustentar seus filhos.
No dia da visita da AFP, ela estava cozinhando em um fogão a lenha que emite uma fumaça acre, pois não tinha dinheiro para comprar gás.
A extração de areia é um dos poucos meios de sobrevivência para mães solteiras como Vanilda, de 32 anos, irmã de Tavares, que tem três filhos de três pais diferentes, “nenhum dos quais ajuda” a criá-los.
– ‘Consequências desastrosas’ –
O comércio ilegal de areia de praia foi combatido nos últimos anos por meio de operações de repressão e campanhas de conscientização.
“Às vezes, esperamos um mês antes de vender um caminhão cheio de areia”, disse Tavares.
Décadas de extração de areia também deixaram sua marca no que antes era a vasta praia de Praia de Areia Grande, na zona leste da ilha.
A extração de areia deixou a região com “consequências desastrosas para a agricultura”, afirmou Samuel Leal, engenheiro agrônomo de 34 anos e representante do Ministério da Agricultura e Meio Ambiente no município de Santa Cruz.
“A barreira natural foi rompida, a água do mar penetrou na terra e o solo se degradou devido à salinização.”
Atrás da Praia de Areia Grande, as terras agrícolas desapareceram, substituídas por acácias, como Leal apontou. Quase 100 agricultores tiveram que abandonar seus campos somente nesta região.
– Esperando por mudanças –
Leal elogia os esforços de prevenção do governo nos últimos anos, que “ajudaram a reduzir o impacto” da extração de areia.
Veiga, da ONG Lantuna, adota uma visão muito mais crítica. Ela critica a inação das autoridades e pede um plano para reintegrar à sociedade as mulheres colhedoras “que se sentem marginalizadas”.
Graças à sua ONG, dezenas de pessoas já fizeram a transição para a criação de porcos ou ovelhas nos últimos dois anos.
“Quando as autoridades nos disseram que a praia ia ficar assim, não acreditamos nelas”, disse Monteiro.
Ela fica triste ao ver o ambiente ao seu redor marcado por décadas de uma prática para a qual ela contribuiu.
“Se eu conseguir ajuda, não virei mais aqui para coletar areia”, disse ela.
