Relatório da ONU aponta que a África ultrapassa a Ásia como o epicentro mundial da fome.

Conflitos e perturbações nos mercados globais de energia podem levar milhões de pessoas à fome, aumentando os custos de combustíveis, fertilizantes e alimentos, alertou o chefe do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, com sede em Roma, enquanto um novo relatório da ONU mostrou que o progresso global no combate à fome permanece frágil.

O relatório da ONU sobre segurança alimentar, divulgado na terça-feira, constatou que a fome global diminuiu ligeiramente nos últimos anos, mas projetou que mais de 500 milhões de pessoas ainda poderão enfrentar a fome crônica até 2030.

Prevê-se que a África suporte a maior parte desse fardo.

Em entrevista à Associated Press em 10 de julho, o presidente do FIDA, Álvaro Lario, afirmou que as tensões geopolíticas e as potenciais interrupções no transporte marítimo e no fornecimento de energia — incluindo a incerteza em torno do Estreito de Ormuz durante a guerra com o Irã — poderiam deixar entre 9 e 18 milhões de pessoas a mais enfrentando a fome, caso os impactos persistam.

Os conflitos continuam sendo um dos maiores obstáculos para a redução da fome em todo o mundo, disse Lario.

Guerras e tensões geopolíticas podem interromper o transporte marítimo, o fornecimento de energia e os insumos agrícolas, aumentando os custos em sistemas alimentares já pressionados pela inflação.

Lario destacou que a fome e o conflito muitas vezes se reforçam mutuamente, criando um ciclo difícil de quebrar sem maior estabilidade.

O aumento dos preços da energia já está afetando os fertilizantes e a produção agrícola, afirmou ele.

O impacto é especialmente significativo para os pequenos agricultores, muitos dos quais dependem do combustível diesel para bombear água, colher as plantações e transportar as mercadorias para o mercado.

O agricultor Mohammed Abdul trabalha em uma plantação de arroz na vila de Agatu, nos arredores do estado de Benue, na região centro-norte da Nigéria, na quarta-feira, 5 de janeiro de 2022.
O agricultor Mohammed Abdul trabalha em uma plantação de arroz na vila de Agatu, nos arredores do estado de Benue, no centro-norte da Nigéria, na quarta-feira, 5 de janeiro de 2022. Chinedu Asadu/Copyright 2022 The AP. Todos os direitos reservados.

Acessibilidade

O aumento dos custos de combustível eleva as despesas de produção e pode impactar diretamente no aumento dos preços dos alimentos.

O novo relatório identifica a acessibilidade financeira como um dos maiores desafios à segurança alimentar em todo o mundo.

Embora a produção de alimentos continue a crescer, aproximadamente um terço da população mundial ainda não tem condições de ter uma alimentação saudável.

Nos países de baixa renda, esse número sobe para cerca de 77%, de acordo com Lario.

As mudanças climáticas estão aumentando ainda mais a pressão sobre os sistemas alimentares e os meios de subsistência rurais.

Lario observou que inundações, secas prolongadas e calor extremo estão afetando cada vez mais a agricultura em todo o mundo e se tornaram uma realidade comum para muitas comunidades.

Os governos devem concentrar-se na resiliência e na adaptação antes que os desastres ocorram, em vez de dependerem exclusivamente de respostas de emergência posteriores, afirmou ele.

ARQUIVO - Somalis que fugiram de áreas atingidas pela seca carregam seus pertences ao chegarem a um acampamento improvisado para deslocados perto de Mogadíscio, Somália, 30 de junho de 2022.
ARQUIVO – Somalis que fugiram de áreas atingidas pela seca carregam seus pertences ao chegarem a um acampamento improvisado para deslocados perto de Mogadíscio, Somália, 30 de junho de 2022. Farah Abdi Warsameh/Copyright 2022 The AP. Todos os direitos reservados.

Crescimento populacional da África

O relatório destaca a África como o desafio mais urgente do mundo em matéria de segurança alimentar.

Pela primeira vez, o continente ultrapassou a Ásia como a região com o maior número de pessoas famintas, e quase 60% da população mundial que sofre de subnutrição crônica poderá viver lá até 2030.

Lario atribuiu essa mudança em parte ao rápido crescimento populacional e aos ganhos econômicos mais lentos do que em algumas partes da Ásia, e pediu maiores investimentos em agricultura, infraestrutura e sistemas alimentares.

Os países africanos importam atualmente quase 100 bilhões de dólares em alimentos por ano, afirmou ele, ressaltando a necessidade de redes locais mais robustas de produção, armazenamento, distribuição e comércio regional.

Lario afirmou que conflitos, perturbações no mercado de energia e eventos climáticos extremos ameaçam comprometer o progresso, a menos que os governos invistam em sistemas alimentares mais resilientes.

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