Uma História de Estigma
Por mais de mil anos, a sociedade sul-coreana estigmatizou as tatuagens. Antigamente, as pessoas tinham crimes ou sua condição de escravo tatuados no rosto ou nos braços como forma de punição e identificação.
No século XX, as gangues criminosas adotaram essa prática, consolidando ainda mais a sua má reputação. Apesar de serem um tabu social e, por mais de 30 anos, a profissão de tatuador ter sido uma ofensa punível, a arte floresceu na clandestinidade.
A Mudança na Legislação
A Suprema Corte coreana decidiu, em 1992, que fazer uma tatuagem constituía um procedimento médico, que só um médico poderia realizar. Esta decisão criminalizou milhares de profissionais. Estimativas recentes do governo apontam para cerca de 350.000 tatuadores, a maioria atuando ilegalmente por não possuir licença médica.
No mês passado, após uma forte campanha de artistas, Seul finalmente legalizou as tatuagens feitas por profissionais não médicos. Esta vitória representa um marco histórico para o setor.
As Pessoas por Trás da Tinta
O documentário recente “Angels”, dos cineastas Hicham Toula-Idrissi e Nancy-Wangue Musisa, pinta um retrato íntimo dos tatuadores que desafiaram o estigma e a lei para seguir sua paixão.
No filme, o tatuador Gui Hee reflete: “Tento ser confiante e não ter nada a esconder — essa é a minha personalidade. Mas, pensando na minha vida e no meu futuro, meu maior problema é a instabilidade”. Ele e seus colegas relataram como suas tatuagens e seu trabalho atraem a desaprovação da sociedade coreana, inclusive de suas próprias famílias.
A colega artista Héin partilha a frustração de carregar o estigma no dia a dia. “Eu morava com a minha avó quando era mais nova e, quando eu passava, as pessoas mais velhas me olhavam. Viam a tatuagem no meu rosto e começavam a se preocupar”, contou ela.
Os Desafios que Ainda Persistem
Embora a nova Lei do Tatuador seja um grande avanço, ainda existem obstáculos. A legislação só entrará em vigor em dois anos. Nesse período, os artistas terão que passar por um exame nacional, concluir treinamento em segurança e higiene e manter registros detalhados do seu trabalho.
Mudar a atitude do público em relação às tatuagens na Coreia do Sul, no entanto, provavelmente levará muito mais tempo do que a própria implementação da nova lei. O estigma social, enraizado por séculos, permanece como o maior desafio a ser superado.
