O Silêncio Comprado: Por que o Cazaquistão Condena quem Critica a China.

Cazaquistão condena 19 ativistas que protestavam contra a China. Em jogo estão biliões de dólares em investimentos que calam as vozes em defesa das minorias de Xinjiang. A ética perde para o dinheiro.

Em reação à condenação e sentença de 19 ativistas no Cazaquistão por participarem de um protesto pacífico contra violações de direitos humanos na região de Xinjiang, na China, Marie Struthers, diretora da Anistia Internacional para a Europa Oriental e Ásia Central, declarou:

“As autoridades cazaques devem libertar imediatamente os 19 ativistas, pois eles estão presos unicamente por exercerem pacificamente seus direitos humanos. As autoridades devem anular suas condenações e sentenças. Criminalizar protestos pacíficos sob o vago pretexto de ‘incitar a discórdia’ é uma farsa da justiça e uma afronta aos padrões internacionais de direitos humanos.”  

O Dilema Étnico

A questão é particularmente sensível porque muitos dos detidos na China são etnicamente cazaques que viviam em Xinjiang.

  • A Traição de Astana: Para os ativistas, o governo cazaque está a trair o seu próprio povo ao punir quem tenta denunciar o desaparecimento de familiares.
  • Dependência Económica: O Cazaquistão é um hub vital para a iniciativa chinesa “Faixa e Rota”. Milhares de milhões de dólares em investimentos em infraestruturas e energia dependem da manutenção de uma relação “sem atritos” com Pequim.

A Mão Longa de Pequim

Não é segredo que a China exerce uma pressão diplomática intensa para que os governos vizinhos suprimam qualquer dissidência uigur ou cazaque fora das suas fronteiras.

  1. Vigilância Partilhada: Há relatos de uma cooperação crescente entre os serviços de inteligência de ambos os países para monitorizar ativistas.
  2. Extradições Silenciosas: Grupos de direitos humanos temem que estas condenações sejam o prelúdio para extradições diretas para a China.

“Não estamos a atacar o Cazaquistão, estamos a pedir ajuda ao nosso governo para salvar as nossas famílias. Hoje, o nosso próprio país tornou-se o nosso carcereiro,” afirmou um dos condenados antes de ser levado da sala de audiências.

Reação Internacional

Organizações como a Amnistia Internacional já classificaram as sentenças como “um ataque vergonhoso à liberdade de expressão”. O caso coloca o Cazaquistão numa posição defensiva perante o Ocidente, num momento em que o país tenta projetar uma imagem de modernização e abertura democrática.

Especialistas e defensores dos direitos humanos consideraram essa a maior medida já tomada pelo governo cazaque para silenciar críticas a mando de Pequim.

Os ativistas, todos cidadãos cazaques, protestaram perto da fronteira com a China em novembro, queimando bandeiras chinesas e retratos do líder chinês Xi Jinping, e exigindo a libertação de um cidadão cazaque detido em Xinjiang no ano anterior.

Onze ativistas foram condenados a cinco anos de prisão por “incitar a discórdia”, enquanto os outros oito tiveram sua liberdade de movimento restringida. Shinquat Baizhan, advogado que representa os ativistas, confirmou as sentenças, que também foram noticiadas pela mídia local.

Embora os cazaques que se manifestam contra as políticas da China em Xinjiang sofram pressão há muito tempo, grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que esta é a primeira vez que um grupo tão grande de ativistas de Xinjiang é preso no país.

“Isto é inédito”, disse Yalkun Uluyol, pesquisador da Human Rights Watch na China. “Sinaliza que o Cazaquistão está disposto a sacrificar a liberdade do seu povo para manter boas relações com Pequim.”

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