O Comité de Política Monetária (Copom) do Brasil decide esta quarta-feira, 4, o rumo da taxa Selic, na primeira decisão relevante de política económica desde a reeleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A hipótese de o ciclo de cortes terminar com a taxa em 13,75% ao ano, que parecia distante até à véspera da segunda volta, passou a ser uma possibilidade real.
Uma semana de forte volatilidade
A semana posterior às eleições levou a Bolsa brasileira à pior queda semanal desde Março de 2020, empurrou o dólar para cima e fez disparar os juros futuros. No primeiro pregão após a segunda volta, o Ibovespa activou o mecanismo de suspensão das negociações (circuit breaker), seguiu-se uma sequência de cinco sessões em baixa e o índice fechou Outubro com o pior desempenho mensal desde Junho de 2022.
No Tesouro Direto, os títulos prefixados registaram a maior subida diária de taxas da série histórica, iniciada em 2005. O Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou títulos para conter a volatilidade.
O que aponta o mercado
Nas opções de Copom negociadas na B3, a probabilidade de manutenção da Selic, minoritária antes das eleições, chegou perto de 70% na quinta-feira, contra cerca de 30% de hipóteses de um corte de 0,25 ponto percentual.
As opiniões dividem-se. O Bradesco projecta um corte de 0,25 ponto percentual, para 13,5%, apesar de admitir que a desvalorização do real e a pressão sobre o petróleo devem elevar a projecção de inflação do banco central. Já Gabriel Magno, da AW Capital, espera um banco central mais duro, que interrompa os cortes para mostrar que "não vai ceder à pressão política". Um operador ouvido pelo InfoMoney defende igualmente a pausa, por ser mais fácil de justificar e deixar a porta aberta a uma retoma.
Leandro Padulla, economista do ASA, nota que antes da segunda volta a discussão era sobre quantos cortes adicionais haveria, e que agora inclui a interrupção imediata do ciclo. Não descarta, ainda assim, um último corte, mas sublinha que, com expectativas mais desancoradas e maior incerteza fiscal, diminui o espaço para aliviar a política monetária.
Contas públicas como pano de fundo
A preocupação centra-se nas finanças públicas. A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em Setembro, segundo o banco central. Segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado, a perda de receita com as apostas online, o pacote para microempreendedores e o reajuste do Bolsa Família devem gerar um impacto de 40 mil milhões de reais não previsto no orçamento, valor que não inclui outras promessas de campanha.
No discurso de vitória, Lula prometeu universalizar a escola de tempo integral até ao ensino secundário e criar o Pé-de-Meia universitário, sem se referir a défice, dívida ou juros, observa Guilherme Ghidetti, da Jera Capital. O Ministério da Fazenda reafirmou o compromisso com a meta fiscal.
Com informação de InfoMoney.
