Onde antes havia plantações de óleo de palma e ananás, no sul da Malásia, ergue-se agora uma das maiores concentrações de poder computacional do mundo. O estado de Johor tornou-se o epicentro de um boom de centros de dados que serve simultaneamente empresas americanas e chinesas.
Terrenos baratos e posição neutra
Segundo a fonte, a empresa DayOne, com raízes numa das maiores operadoras chinesas de centros de dados, tem mais de 15 gruas num terreno de cerca de 40 hectares, onde constrói um grande complexo. A poucos quilómetros, centenas de trabalhadores concluem outra instalação destinada a empresas tecnológicas chinesas.
Nestes centros deverão funcionar alguns dos chips de inteligência artificial mais avançados do mundo, fabricados pela Nvidia. Estes semicondutores têm a exportação para a China amplamente proibida pelas restrições dos Estados Unidos, mas as regras não impedem, em geral, que empresas chinesas, como a ByteDance, principal cliente da DayOne, lhes acedam em centros localizados fora do território chinês.
Terrenos baratos, energia relativamente acessível e a proximidade de cabos submarinos que ligam a China ao resto do mundo atraem milhares de milhões de dólares de investimento para um país de 35 milhões de habitantes. Gigantes como Microsoft, Google e Oracle investem para estar perto dos clientes asiáticos, enquanto ByteDance, Tencent e Alibaba utilizam o país para processar dados. Em alguns parques industriais de Johor, infra-estruturas para empresas americanas e chinesas estão a ser construídas lado a lado.
"O que torna a Malásia tão especial para esta onda da IA é precisamente a sua posição neutra e não alinhada", afirmou Lee Ting Han, membro do governo de Johor envolvido na aprovação dos projectos.
Um boom que começou em 2021
O movimento arrancou por volta de 2021, depois de Singapura proibir novos centros de dados devido a limitações energéticas, o que levou as empresas a procurar terrenos do outro lado da fronteira. As companhias chinesas chegaram primeiro. A DayOne, que era a subsidiária internacional da GDS Holdings e foi rebaptizada em 2025, anunciou a primeira instalação em Johor nesse ano e chegou a transformar um campo de golfe de 18 buracos num novo complexo.
A empresa captou milhares de milhões de dólares junto de investidores internacionais, incluindo a americana Coatue Management e o grupo japonês SoftBank, e anunciou planos de abertura de capital. Mantém, contudo, fortes ligações ao sector tecnológico chinês: a GDS continua a ser uma importante accionista, a par da Hillhouse Investment. Num documento recente a investidores, a DayOne indicou que um cliente não identificado de um "serviço líder de vídeos curtos" gerou quase 70% das receitas no primeiro semestre de 2026.
Pressão sobre a energia e atenção de Washington
Johor tem 65 projectos de centros de dados em operação, construção ou aprovação. As instalações já consomem mais de 2 gigawatts de electricidade, o suficiente para abastecer mais de um terço das casas do país. Se todos os projectos forem concluídos, a procura poderá ultrapassar 10 gigawatts, segundo a agência estatal Invest Johor. A expansão suscitou ainda preocupações com o consumo de água.
As autoridades americanas acompanham o fenómeno de perto. Um relatório circulado no governo dos EUA identificou participação chinesa, directa ou indirecta, em 38 dos 128 projectos existentes no Sudeste Asiático, e estimou que a capacidade de computação disponível para empresas chinesas na região é quase tão significativa como a da própria China continental, onde as restrições americanas travaram o sector.
Em Julho, Michael Kratsios, assessor da Casa Branca para a IA, acusou a chinesa Moonshot de usar chips avançados em centros de dados na Tailândia para treinar os seus modelos.
Com informação de InfoMoney.
