Este surto na República Democrática do Congo é causado pelo Bundibugyo, uma cepa rara para a qual o mundo não possui vacina aprovada, tratamento licenciado e praticamente nenhuma experiência em combatê-la.
A medida sem precedentes da OMS, em 16 de maio, classifica o surto como uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” (ESPII), o mesmo nível reservado para as crises de saúde globais mais graves.
Os Números
Até 15 de maio, as autoridades de saúde registraram 246 casos suspeitos e 80 mortes suspeitas na província de Ituri, na República Democrática do Congo, com apenas 4 mortes oficialmente confirmadas. Na terça-feira, 19 de maio, o número de mortes havia ultrapassado 120, com quase 400 infecções potenciais.
O surto já ultrapassou fronteiras. Uganda confirmou 2 casos em Kampala, ambos viajantes provenientes da República Democrática do Congo, com 1 óbito.
O que torna esses números ainda mais alarmantes é a incerteza. As áreas afetadas, as zonas de saúde de Mongwalu e Rwampara, são remotas e estão localizadas em uma das regiões mais inseguras da África, onde grupos armados operam livremente. Autoridades de saúde admitem que os números reais provavelmente são muito maiores.
O que torna o Bundibugyo diferente?
Bundibugyo é uma das quatro únicas espécies de Ebola conhecidas por infectar humanos, juntamente com Zaire, Sudão e Taï Forest. No entanto, é a mais rara de todas.
Este é apenas o terceiro surto documentado de Bundibugyo na história, segundo a OMS. O primeiro ocorreu em 2007-2008 em Bundibugyo, Uganda, e a cepa recebeu o nome em homenagem a esse local. O segundo foi na República Democrática do Congo em 2012. Esta é a primeira vez que a doença desencadeia uma emergência global.
A taxa de replicação mais lenta é enganosa. Embora o Bundibugyo demore mais para incapacitar as células imunológicas, o período de incubação é o mesmo: em média, de 8 a 10 dias, podendo chegar a 21 dias. Quando os sintomas aparecem, o vírus já se espalhou.
A Lacuna Mortal: Sem Vacina, Sem Tratamento
O que mais preocupa as autoridades de saúde é o seguinte: não existem contramedidas aprovadas.
Ao contrário da cepa Zaire, responsável por vários surtos na República Democrática do Congo, não existem atualmente terapias ou vacinas aprovadas especificamente para o vírus Bundibugyo, conforme declarado explicitamente pela OMS em seu comunicado de emergência.
A vacina Ervebo existente, que foi usada com sucesso em surtos anteriores na RDC, não oferece proteção eficaz contra o Bundibugyo. Seria necessária uma autorização de uso emergencial para qualquer tratamento experimental, um processo que leva tempo e que o mundo pode não ter.
Por que os sintomas dificultam o controle da doença
Os sintomas iniciais do Ebola em Bundibugyo são enganosamente semelhantes aos de doenças comuns na região: febre, fadiga, mal-estar, dores musculares, dores de cabeça, dores de garganta e, posteriormente, progridem para vômitos, diarreia, hemorragias internas/externas graves e falência múltipla de órgãos.
Pelo menos quatro profissionais de saúde morreram nos quatro dias seguintes à detecção do surto. Mais de 60% dos casos são do sexo feminino, o que sugere transmissão domiciliar e por cuidadores, ou seja, familiares que cuidam de parentes doentes em casa.
Disseminação transfronteiriça e risco regional
O surto já se espalhou da República Democrática do Congo para Uganda por meio de viajantes, aumentando as preocupações com a disseminação regional. Autoridades de saúde em Kampala estão monitorando mais de 600 contatos, sendo 15 classificados como de alto risco.
A OMS recomendou que não se fechem as fronteiras, alegando que isso agravaria a crise humanitária sem impedir de forma significativa a propagação do vírus. Em vez disso, está sendo implementada uma vigilância reforçada nas fronteiras.
Para a Europa, o risco permanece baixo, mas não nulo. A OMS afirmou explicitamente que os viajantes provenientes de áreas afetadas devem ser examinados, mas não recomenda restrições de viagem.
Uma História de Negligência
Este é o 17º surto de Ebola na RDC desde 1976, mas é a primeira vez que Bundibugyo desencadeia uma emergência global. O surto na província de Kasai, que terminou em outubro de 2025, teve 43 mortes e mais de 42.000 pessoas vacinadas.
O surto de ebolavírus do Sudão em Uganda, na primavera de 2025, também terminou sem a declaração de Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional (ESPII). O que torna Bundibugyo diferente? A completa ausência de medidas médicas de contenção.
Bundibugyo foi descoberto há menos de duas décadas, em 2007-2008, e tem sido negligenciado por ser tão raro.
Acredita-se que os morcegos frugívoros sejam o principal reservatório, com todos os surtos ocorrendo na região da bacia do rio Congo.
