O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou hoje, em Espanha, que "os mandatos passam", mas que a luta pela paz, pela dignidade e pela justiça continua. O discurso foi proferido na Universidade de Salamanca, em agradecimento pelo doutoramento ‘honoris causa’ que a instituição lhe atribuiu, a menos de dois meses de deixar o cargo.
Vinte anos ao serviço da ONU
O antigo primeiro-ministro português recordou os 20 anos que passou ao serviço da organização, primeiro como alto comissário para os Refugiados e depois como secretário-geral. Disse ter conhecido "pessoas que perderam tudo menos a esperança", em cidades arrasadas pela guerra, campos de refugiados ou ilhas ameaçadas pelo mar.
"Ensinaram-me que a dignidade tem um rosto e um nome", declarou, dedicando a distinção a essas pessoas e aos funcionários da ONU que as acompanham, muitas vezes "à custa da própria vida".
Cinco provas para o multilateralismo
Guterres identificou cinco provas decisivas para o multilateralismo: a prevenção, procura e manutenção da paz; a garantia da dignidade de todas as pessoas; a equidade; a justiça climática; e o controlo e regulação da revolução tecnológica associada à Inteligência Artificial. Resumiu-as numa só exigência: submeter a força ao direito e o poder ao bem comum.
Segundo o secretário-geral, a paz só será possível se o mundo funcionar em rede, com um direito internacional respeitado por todos e instituições onde todos os países tenham voz. Referiu que está em curso uma tentativa de reformar a ONU, que continua a reflectir o mundo de 1945, mas ressalvou que nenhuma reforma é possível ou sustentável "sem um novo impulso da razão".
"A nossa época precisa de coragem frente à mentira, ao ódio e à lei do mais forte, ainda que seja impopular e arriscado", apelou.
Apelo às universidades e aos estudantes
Guterres sublinhou o papel "insubstituível" das universidades, onde se aprende a "duvidar, verificar e debater", e defendeu a protecção da liberdade académica e da independência da investigação. Pediu ainda aos estudantes que participem plenamente nas decisões que moldarão o seu futuro.
Na cerimónia esteve presente o Presidente da República portuguesa, António José Seguro. A atribuição do título integra as celebrações do V Centenário da Escola de Salamanca, segundo a universidade.
O vice-reitor, José Miguel Mateos Roco, descreveu Guterres como um intelectual e estadista que dedicou a carreira a "humanizar a governação global" e a defender a dignidade de cada ser humano. A universidade lembrou que o doutoramento ‘honoris causa’ é a sua máxima distinção académica, concedida a figuras de reconhecido prestígio internacional.
Com informação de Notícias ao Minuto — Mundo, Observador.
