Uma vasta quantidade de documentos que descrevem o rico subsolo do que hoje é a República Democrática do Congo preenche quase 500 metros de prateleiras no Museu da África em Tervuren, nos arredores da capital belga.
O museu prometeu digitalizar o acervo e torná-lo público em até cinco anos e, com o aumento da corrida pelas chamadas terras raras, tem se debatido sobre até que ponto deve compartilhar os dados com o setor de mineração.
No ano passado, a instituição – anteriormente conhecida como Museu Real da África Central – recusou uma oferta da empresa americana KoBold Metals para cuidar da digitalização do acervo.
Autoridades belgas afirmaram que não poderiam conceder acesso exclusivo a milhões de documentos sobre a geologia do Congo a uma empresa privada estrangeira.
Em vez disso, com financiamento significativo da UE, pretende contratar uma empresa europeia para o projeto gigantesco, que se encontra atualmente em fase preparatória.
O objetivo final é disponibilizar os dados às autoridades da RDC, tanto para apoiar a pesquisa científica quanto para ajudar a desbloquear oportunidades econômicas.
“A partir da década de 1960, empresas privadas belgas faliram, cessaram suas operações no Congo e depositaram arquivos aqui”, disse o diretor do museu , Bart Ouvry.
“Esses aspectos são importantes do ponto de vista científico, mas também do econômico. E, por isso, há algum tempo, existe um grande interesse neles, não só por parte dos cientistas, mas também do setor privado.”
François Kervyn, o geólogo do museu que lidera o projeto, disse: “O conteúdo dos documentos é absolutamente incrível”, descrevendo décadas de trabalho de campo realizadas em regiões em grande parte não mapeadas.
O arquivo reúne levantamentos realizados por geólogos belgas, bem como documentos de empresas de mineração que operavam no vasto país africano antes da independência, em 1960.
Embora o foco inicial fosse o cobre e o ouro, alguns registros também apontam para depósitos de cobalto e lítio – minerais que se tornaram estrategicamente vitais nos últimos anos.
Para Kinshasa, os dados históricos podem ajudar a identificar novos depósitos e atrair investimentos, visto que a demanda por materiais usados em armas, telefones celulares e carros elétricos está em alta.
“Os congoleses identificaram diversas zonas prioritárias de exploração – eles não estão começando do zero. Estamos fornecendo arquivos para confirmar ou aprimorar o conhecimento deles”, disse Kervyn.
Sendo um dos 15 países menos desenvolvidos do mundo, a República Democrática do Congo possui algumas das terras mais ricas do planeta, notadamente em cobre, cobalto, coltan e lítio.
Num setor amplamente dominado pela China, outras grandes potências estão cada vez mais de olho no subsolo congolês, num esforço para competir – com os Estados Unidos, em particular, buscando expandir sua influência.
